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Em 2013, a série britânica “Black Mirror” lançava sua segunda temporada. No primeiro episódio, uma viúva desolada experimentava um novo serviço que permitia “contato com os mortos”, ou melhor, com uma versão virtual de seu falecido marido. Essa aproximação começava com mensagens de texto, já que o sistema era alimentado por uma base de dados com informações comportamentais das interações online entre os dois enquanto ele ainda era vivo. Mas, depois de um tempo, graças a vídeos e fotos, o serviço foi capaz de reproduzir a voz e, assim, permitir que a viúva “conversasse com ele” por telefone. A evolução desse processo foi a criação de um androide, à imagem e semelhança do falecido, que interagia pessoalmente com a inconsolável mulher.

Deibson Silva, pesquisador e neuropsicólogo formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).

Agora, sete anos depois, um pesquisador brasileiro acha que chegou o momento de colocar em prática o serviço previsto pela série de ficção. “Se eu falasse sobre a minha ideia três anos atrás, não teríamos tecnologia suficiente”, diz Deibson Silva, pesquisador e neuropsicólogo formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).



Em pleno Vale do Silício, o brasileiro começou, então, a desenvolver a startup Legathum, o nome vem da palavra legado. “O intuito do projeto é mapear a personalidade humana e transferir tudo isso para uma inteligência artificial.” Ele explica que esse processo será feito por meio de um bot, que servirá como um mentor de vida, pedindo para que o usuário conte suas histórias e lembranças. “O sistema vai levar, no mínimo, seis meses para mapear todo o histórico de uma pessoa adulta, da infância aos dias atuais. E não vai mais parar, ou seja, será um processo contínuo até o último dia de vida.”

Ele diz que o objetivo é ter informações variadas: do cotidiano, momentos marcantes, memórias e conhecimentos. E é a partir dessa análise completa desses dados e da personalidade da pessoa que a ferramenta vai conseguir chegar no objetivo final: promover conversas por chamada de vídeo. “Só vamos alcançar esse resultado daqui, mais ou menos, três ou quatro anos.” Isso porque é preciso recriar a voz, a imagem e a tomada de decisões da pessoa falecida para que ela possa conversar e dar conselhos para seus familiares e amigos de forma fiel.

“Eu perdi minha avó, que foi como uma mãe para mim, quando tinha apenas 18 anos. Ela ainda tinha muita coisa para me ensinar sobre a vida. Tive que tomar muitas decisões sozinho, então, por que não consultar uma inteligência artificial com a mesma mentalidade daquela pessoa que se foi?”, pergunta o brasileiro.

Enquanto a startup é desenvolvida para chegar nesse nível de contato “póstumo”, o pesquisador conta que o primeiro protótipo, com previsão de lançamento restrito a um grupo de pessoas para dezembro de 2020, vai gerar um livro e um filme biográfico com as memórias de alguns usuários que estão testando a novidade.



Silva espera que, com o seu projeto, possa fazer ressoar para sempre as vozes dos que se vão.

Fonte: Forbes