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Em seu discurso o ex-Ministro do Trabalho e ex-Presidente do Tribunal Superior do Trabalho destacou algumas famílias italianas que se consolidaram em Capivari. Veja



Por Yuri Rossi

Na noite da última segunda-feira (03) aconteceu no plenário Juscelino Kubitschek da Assembleia Legislativa, a sessão solene comemorativa do Dia da Comunidade Italiana. Compuseram a mesa dos trabalhos, o deputado Vitor Sapienza (PPS), que solicitou o evento, o cônsul-adjunto da Itália, Marco Leoni, e o representante da América Meridional no Parlamento Italiano, Fábio Porta.

O evento é comemorado desde 1988, quando foi instituída a Lei 6.133/98, a partir de um projeto de autoria do deputado, neto de imigrantes italianos. O parlamentar entende que o fato de sua sessão solene ser a mais conhecida do Parlamento paulista é uma demonstração da importância da aproximação dos dois países.

Também por iniciativa de Sapienza, foi criado em 1991 o troféu Loba Romana, prêmio concedido a italianos e seus descendentes, além de outras personalidades, que, pela atuação na sociedade, seja na economia, na saúde, nas artes ou na cultura, contribuem para estreitar ainda mais os laços entre o Brasil e a Itália.



Desde que foi instituído, o troféu Loba Romana já foi entregue a centenas personalidades. A Loba Romana é uma estatueta em bronze, com pedestal em mármore, que retrata, de forma estilizada, a Lupa Capitolina, escultura que simboliza a origem divina do fundador de Roma, Rômulo, e seu irmão Remo.

Nesta edição do evento foram homenageadas dezoito personalidades descendentes de italianos que se destacaram em suas áreas de atuação, como políticos, médicos, padres e profissionais da comunicação.

Entre eles o capivariano Almir Pazzianotto Pinto, Ex-Ministro do Trabalho e Ex-Presidente do Tribunal Superior do Trabalho.

Almir é nascido em 29 de outubro de 1936 e Iniciou a vida profissional ainda criança como fotógrafo, profissão de seu pai. Já em 1960 se formou em Direito, pela Universidade Católica de Campinas.

O seu primeiro mandato de deputado estadual foi conquistado nas eleições de 1974, pelo velho MDB, quando integrava as fileiras da oposição ao regime militar. Em 1978 e 1982 se reelegeu mesmo com a transformação do o MDB em PMDB. Em março de 1983 assumiu a Secretaria de Relações do Trabalho do governo Franco Montoro e, em março de 1985, foi convocado por Tacredo Neves para assumir o Ministério do Trabalho.

Em setembro de 1988, após três anos e meio à frente do Ministério, foi indicado, pelo Presidente Sarney para assumir o cargo de ministro vitalício do Tribunal Superior do Trabalho, onde se aposentou na presidência, em março de 2002, depois de haver exercido a Corregedoria-Geral e a Vice-Presidência do Ministério.

Em seu discurso de agradecimento Almir Pazzianotto citou dezenas de famílias de origens italianas que se consolidaram em Capivari, além de citar obras, fatos e acontecimentos, que hoje fazem parte da história dos 180 anos da cidade.

A Direção e toda a equipe da Raízes FM parabeniza o capivariano Almir Pazziznotto Pinto pelo prêmio recebido.

Confira abaixo o discurso completo do senhor Almir Pazzianotto Pinto:

Exmo. Sr. Deputado Vítor Sapienza;
Exmo. Sr. Deputado Fábio Porta;
Exma. Sra. Deputada Célia Leão;

Sinto-me desvanecido ao retornar à essta Assembleia Legislativa, que integrei como deputado entre 1976 e 1986. Volto para receber o troféu “Loba Romana”, criado por lei estadual, com o justo propósito de render homenagens à operosa comunidade italiana paulista.

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Peço desculpas pela ausência da minha mulher, Neyde Rosa Caruso, do meu filho Paulo Henrique. Estão, em companhia de minha nora Débora e da netinha Catarina, em viagem há muito tempo programada à Itália. Era velho desejo da familia a pequena comunidade de Montazo, na província de Chieti, região de Abruzo, cidade da família do seu pai, já falecido, Aristides Caruso.
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Sou de Capivari, nascido em 29 de outubro de 1936, na primeira metade do século passado.

Pelo lado paterno sou Amaral Pinto, filho de Ulysses do Amaral Pinto, filho de José Pinto de Oliveira, ou Juca Pinto, e de Ana Ferreira do Amaral Pinto.

Pelo materno Pazzianotto, filho de Maria Porrelli Pazzianotto Pinto, filha de Ricardo Pazzianotto e de Maria Lucafó Porrelli Pazzianotto. Meu avô materno foi filho caçula de imigrantes venetos, e o único aqui nascido. Minha avó materna era natural de Bari.

Iniciei a vida como fotógrafo, profissão do meu pai, que a adquiriu do avô Juca.

Exerci o ofício de criança, até me graduar advogado em 1960, pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas.

O primeiro mandato de deputado estadual foi conquistado nas eleições de 1974, pelo velho MDB, quando integrava as fileiras da oposição ao regime militar. As eleições, restritas ao poder legislativo, foram disputadas sob o governo do general Médici, sucedido, em 1975, pelo general Ernesto Geisel.

Em 1978 me reelegi, o que voltou a acontecer em 1982, quando o MDB se transformara em PMDB. Em março de 1983 licenciei-me para assumir a Secretaria de Relações do Trabalho do governo Franco Montoro e, em março de 1985, pedi novo afastamento para atender ao chamado de Tancredo Neves, que me convocou para ser Ministro do Trabalho.

Em setembro de 1988, após três anos e meio à frente da do Ministério, fui indicado, pelo Presidente Sarney para assumir o cargo de ministro vitalício do Tribunal Superior do Trabalho, onde me aposentei, na presidência, em março de 2002, depois de haver exercido a Corregedoria-Geral e a Vice-Presidência.

Vivi, durante esses anos todos, a lenta transição do regime discricionário para a democracia, participando das campanhas pela restauração do Estado democrático de direito.

Senhoras e Senhores:

Disse alguém que o brasileiro resulta da combinação de três culturas: da magia, dos negros; da ociosidade, dos indígenas; dos privilégios, dos portugueses.

São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, em razão do clima semelhante, foram os estados preferidos pelos primeiros imigrantes de sangue itálico.

Vinham em busca de nova pátria, para criar e educar os filhos, às custas de muito trabalho. Nada indagaram sobre condições de vida que iriam encontram, pois estavam dispostos a todos os sacrifícios em um País ainda novo, e baixíssimo nível de desenvolvimento.

Em Capivari, cidade natal, e na vizinha Rafard, numerosas são as famílias de origem italiana. Para relacioná-los, além do que tenho armazenado na memória, busquei ajuda em Almeida Grellet, autor de “Capivari – 1832-1932; João Augusto Bastos de Matos, que editou “Oriundi – Os italianos em Capivari”; “Capivari em duas décadas”, de José Roberto Guedes de Oliveira”.

Pazzianotto, Porrelli, Jarussi, Maschietto, Bósio, Vigoritto, Busato, Armelin, Forti, Juliani, Forner, Anicchino, Franchi, Quagliatto, Turola, Janotta, Pagotto, Bresciani, Albertini, Angellini, Lembo, Ferraciu, Assalin, Quibáo, Carnelossi, Andrello, Parizotto, Pavan, Cerezer, Moroni, Chiarini, Colnaghi, Turquetti, Borghezze, Bizzon, Boccardo, Battistella, Batagin, Bachiegga, Carravero, Aggio, Balan, Conselvan, Panserini, Bisin, Bossolan, Braggion, Piai, Catel, Brugnerotto, Scafoglio, Grissotto, Dal Fabro, Fornazieri, Favotto, Tempesta, Ricomini, Schincariol, Panza, Ortolani, Cristófolli, Crócomo, De Marco, Ruzza, Stuchi, Tonin, Stênico, Giatti, Cancian, Cassaniga, Del Ghingaro, Leone, Favotto, De Cillo, Massucatto, Mutton, Borgonovi, Freguglia, Chechia, Bertolinni, Berganton, Fornaziero, Drigo, Janotta, Luchetti, são algumas das famílias que no final do século XIX, e primeiras décadas do século XX, enriqueceram a fértil região banhada pelo Rio Capivari com talento, trabalho, amor à família, religiosidade.

A primeira notícia da presença de imigrante italiano, em minha cidade, encontrei no livro de Almeida Grellet. Registrou o pesquisador que em 26 de julho desse 1881 o negociante Emílio Capóssoli, recentemente chegado da Itália, inaugurou a sua fábrica de calçados, denominada ‘Casa Capóssoli”. Em 4 de agosto de 1885, de acordo com o mesmo historiador, assentou-se a pedra fundamental do futuro mercado municipal, construído por Sabatino Falcioni, cujo nome não deixa dúvida da origem italiana. À cerimônia estiveram presentes outros imigrantes como o Padre Inácio Misazzi, Girando Calvitto, Francisco Pianelli, Nicola Tedesco, Desantori Biaggio, Miguel Russo, Teófilo Portela.

Ainda segundo Grellet, entre anúncios publicados pelo jornal “Gazeta”, em março de 1900, encontramos o do fotógrafo Antonio Nacari, a Alfaiataria Parisiense, de Antonio Nespoli, a oficina de caldeireiro e funileiro de Vicente Panza, e Jarussi & Buzzi, vendedores de solas de boa qualidade.

As relações colhidas por Grellet, de alunos do grupo escolar, na primeira década do século passado, citam, ao lado de tradicionais famílias brasileiras, como Silveira, Pestana, Camargo, Mota Queiroz, Silva, Carvalho, Villares, Godói, Aguiar, Amaral, os nomes da primeira geração de filhos de imigrantes italianos: Messina, Giovanetti, Corazza, Conforti, Gambali, Bisso, Quaglia Datti, Pasquallini, Guidetti, Marracinni, Cortellazzi, Alcadipani, Cardinalli.

Ilude-se porém, quem imaginar que era doce e fácil a vida dos colonos italianos. Trazidos para substituir o braço escravo, alforriado pela Lei Áurea em 13 de maio de 1888, os “carcamanos” ou “macarroni”, como eram denominados pelos naturais da terra, conseguiram conquistar espaços na economia, educação, política ao preço do trabalho de sol a sol, e incansáveis sacrifícios.

No campo e na vida urbana o cenário era o mesmo. O Brasil do século XIX e das primeiras décadas do século XX ignorava-se a legislação do trabalho, ainda em fase inicial na Europa. A sindicalização, conquanto prevista por lei de 1907, era encarada com hostilidade pelos empregadores e reprimida pela polícia.

A organização de associações de defesa e solidariedade, grêmios, uniões, sindicatos, federações, só se fazia possível em porões, de maneira clandestina, e não raras vezes a polícia era acionada para desfazer reuniões destinadas a difundir doutrinas socialistas, comunistas, anarquistas, ou formular reivindicações a insensíveis empresários.

Registra Everardo Dias, autor da “História das Lutas Sociais no Brasil, que “de 1903 a 1930, não houve sindicato que tivesse vida regular e livre de intervenções policiais”.

Caio Prado Júnior, no clássico “Evolução Política do Brasil”, examina detidamente a situação dos primeiros imigrantes. “Os proprietários – diz ele – habituados a lidarem exclusivamente com escravos, e que continuavam a conservar muitos deles trabalhando ao lado dos colonos, não tinham para com estes a consideração devida a sua qualidade de trabalhadores livres. Os contratos de trabalho que os imigrantes assinavam antes de embarcarem na Europa, e desconhecendo ainda completamente o meio e as condições do país onde se engajavam, eram muito frequentemente redigidos em proveito exclusivo do empregador, e não raro com acentuada má-fé.”

Prossegue o escritor: “Os imigrantes, que chegavam em grupos numerosos, eram depois desembarcados em Santos, imediatamente fechados e trancados em vagões de estrada de ferro. O trem que os conduzia para São Paulo (,,,,) depositava-os diretamente no pátio da Hospedaria dos Imigrantes, que pensadamente se localizara à margem dos trilhos da S.P.R., hoje Estrada de Ferro Santos-Jundiaí”.

A greve de 1907, deflagrada para obrigar o empresariado paulista a reajustar salários desvalorizados pelo aumento do custo de vida, é marco histórico no direito sindical brasileiro. Pela primeira vez a Capital do Estado parou. Atemorizado pela dimensão do movimento, o governo estadual pediu auxílio federal e recuou. Acordo intermediado por jornalistas – entre os quais o escritor e poeta capivariano Amadeu Amaral – foi, afinal, obtido com a garantia de anistia aos grevistas, para ser violado tão logo o operariado retornou ao trabalho.

A persistência dos imigrantes não poderia deixar de trazer resultados. À medida que conseguiam economizar adquiriam porções de terra, montavam destilarias artesanais, produziam aguardente e açúcar mascavo, até conseguirem levantar engenho, mais tarde transformado em usina.

Na cidade partiam para a formação de modestas oficinas, de onde emergiriam pequenas indústrias que, com o tempo, se transformaram em conglomerados empresariais. O mesmo sucederia no comércio, serviços, transportes, instituições financeiras.

De empregados se convertiam em patrões. Outros enveredaram pela vida pública, para o jornalismo, ou profissões liberais, como advogados, professores, médicos, engenheiros.

Senhores Deputados, senhoras e senhores:

Expressivo exemplo de integração multicultural é encontrado nesta Assembleia Legislativa. Ao meu tempo de deputado aqui conviviam, como membros do MDB e ARENA, representantes de famílias tradicionais, como Agnaldo de Carvalho, Dulce Cunha Braga, Evandro Mesquita, João Lázaro de Almeida Prado, Waldemar Lopes Ferraz, Caio Pompeu de Toledo, e netos de imigrantes a exemplo de Manoel Sala, André Pescarini, Adail Vetorazzo, Januário Mantelli, Vanderlei Simionato Doenha, Fernando Scalamandré, Doreto Campanari, Vicente Botta, André Benassi, Hatiro Shimomoto, Nabi Abi Chedid, Walter Auada.

Ao tratar das contribuições de três culturas, combinadas na formação da cultura do povo brasileiro, omiti a milenar cultura italiana. Dos bisavós e avós da península da Bota herdamos, além do amor ao trabalho, às artes, à literatura, à boa massa, ao bom vinho, o inderrotável otimismo.

Reduzida quase à miséria, em duas grandes guerras mundiais, a Itália soube se reconstruir como democracia e, mais forte do que todas as crises, se elevou à condição de proa em meio às economias desenvolvidas, graças à genialidade industrial e artística dos automóveis, tecidos, produtos químicos, ferramentas, cinema,

São Paulo, este país desenvolvido, que tantas semelhanças guarda com a Itália, somente foi possível graças aos sacrifícios incansáveis a que se submeterem nossos antepassados.

“A Vida é Bela” – para tomar de empréstimo o título do laureado filme de Roberto Benigni – é a crença irredutível dos italianos, invariavelmente capazes de reunirem forças para sobreviver e se recuperar, como aconteceu após a II Grande Guerra.

Nesta fase conturbada em nos encontramos, quando a corrupção dos costumes e na política avança implacável, a insegurança generalizada nos amedronta, o ensino decai, a saúde pública em quase abandono, o sistema de transporte público beira o colapso, inspiremo-nos na Itália, para resistir e continuar na busca da eterna beleza da vida.

Agradeço ao ilustre Deputado Victor Sapienza, aos demais Srs. Deputados – e creio que o faço em nome dos ilustres homenageados – pela alta distinção que nos foi concedida, com a outorga da “Loba Romana”, símbolo imortal e milenar da histórica capital da terra dos antepassados.

Almir Pazzianotto Pinto