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A Galeria Tarsila do Amaral, espaço cultural de Capivari dedicado à vida e obras da pintora e desenhista capivariana Tarsila do Amaral (1886-1973), representante do movimento modernista brasileiro, completa um ano de funcionamento em fevereiro, tendo recebido visita de cerca de 3 mil pessoas neste período, entre crianças, jovens, adultos e idosos de Capivari e cidades da região, como Rafard, Piracicaba, Elias Fausto, Campinas e Hortolândia.

Inaugurada em 22 de fevereiro de 2018, a Galeria Tarsila do Amaral abriga cerca de 70 obras de arte, que são releituras e reproduções de quadros de autoria da Tarsila do Amaral. Essas peças artísticas foram confeccionadas por professores e alunos das escolas municipais, estaduais e particulares de Capivari, bem como por artistas visuais do município e da região. Também existem obras emprestadas do acervo do Museu Histórico Pedagógico Doutor Cesário Motta Júnior.

Entre as releituras em exposição no local estão as de quadros como A Lua (1928), Abaporu (1928) e Operários (1933). Os suportes utilizados nas produções das obras são variados, como tela, tecido, telha, azulejo, madeira e metal. Alguns dos materiais e técnicas usados são sementes, canudos, botões, rolo de papel higiênico, jornal, mosaico e tie dye. A exposição é integrada, ainda, por esculturas, cenários interativos, jogo quebra-cabeça, painel com a linha do tempo de Tarsila, unindo imagens e informações biográficas, e banners com reproduções de frases de autoria da artista. Uma carteira forense com inscrição dedicatória e assinatura de Tarsila do Amaral ao amigo major Antonio Pires de Campos, de 1913, também pode ser vista pelos visitantes.



Conforme o secretário de Cultura e Turismo da cidade, Alexandre Della Piazza, a Galeria nasceu de um projeto cultural e educacional envolvendo as escolas do município. “Em 2017, realizamos o projeto Tarsila – 130 anos, no qual os alunos e professores das instituições de ensino de Capivari desenvolveram estudos e releituras de obras da Tarsila. Fizemos uma exposição com as produções e foi um sucesso. A partir disso, selecionamos as melhores obras e em 2018 tornamos real o sonho de fazer essa galeria em homenagem à Tarsila”, contou. E acrescentou. “A Tarsila é uma pintora conhecida mundialmente e as pessoas precisam saber da relevância que tem para a arte.”

Ainda segundo Piazza, em comemoração ao primeiro ano da Galeria, o local deve passar por reformulação no layout e troca dos quadros.

ATIVIDADES
Na Galeria Tarsila do Amaral, além da mostra principal há exposições temporárias. Neste primeiro ano em funcionamento, o espaço cultural abrigou “Momentos e Pessoas de Capivari”, na qual o fotógrafo Carlos Pelegrini de Camargo reuniu cerca de 60 fotos em preto e branco sobre momentos culturais de Capivari, e “O Dom”, com quadros e objetos pessoais de José Oélio Cobra Cyrino. Houve no local, ainda, o lançamento do livro infantojuvenil “Uma Viagem Emocionante”, de Sara Luana; oficinas de percussão, teatro e canto, workshop musical, entre outras atividades. Pesquisadores e estudantes estiveram na Galeria para gravações de documentários e produções de materiais sobre Tarsila.

ARTISTA
Nascida em 1 de setembro de 1886, na Fazenda São Bernardo, em Capivari, Tarsila do Amaral estudou com diversos artistas, tanto no Brasil quanto no exterior. Teve como mestres William Zadig, Pedro Alexandrino, Georg Elpons, entre outros. Na década de 1920, iniciou a chamada Fase Pau-Brasil, com produções voltadas a temáticas nacionais. A tela Abaporu, que pintou em 1928, inspirou o movimento antropofágico, manifestação artística desencadeada pelos escritores Oswald de Andrade e Raul Bopp com o intuito de assimilar outras culturas, mas não copiá-las. Em 1933, depois de viagem à União Soviética, começou uma fase voltada para temas sociais, com as obras Operários e 2ª Classe. As principais características dos trabalhos de Tarsila são cores vivas e formas geométricas (influência do cubismo, movimento artístico surgido na França) e abordagem de temas sociais, cotidianos e paisagens do Brasil. Tarsila morreu em São Paulo no dia 17 de janeiro de 1973, aos 86 anos de idade, com infecção generalizada, decorrente de uma operação na vesícula.

Sobrinho de Tarsila, o advogado aposentado Guilherme Augusto do Amaral, 88, (o pai de Guilherme, Milton Estanislau do Amaral, era irmão de Tarsila), disse que Tarsila era requisitada tanto no âmbito profissional quanto no familiar. “Tarsila era um doce de criatura. Todos os sobrinhos tinham adoração por ela. Era gratificante fazer visitas a ela. Eu ia mais rotineiramente vê-la, porque estava na parte administrativa dos bens que possuía, mas tive pouca participação nas vendas das obras que produzia, já que ela mesma fazia isso por iniciativa própria”, contou. E complementou. “Tarsila era muito solicitada por diversas personalidades da maior importância. Zilda Natel, primeira-dama do Estado (Maria Zilda Natel, mulher do governador Laudo Natel, que governou São Paulo nas décadas de 1960 e 1970), dava uma atenção especial à tia Tarsila. Quem também frequentava a casa dela era o médium Chico Xavier. Ele mandava muitas cartas a ela e quando ia a São Paulo não deixava de visitá-la no apartamento”, relatou ele, que atualmente mora em uma fazenda em Mombuca que pertencia ao pai da artista, o advogado José Estanislau do Amaral, conhecido como doutor Juca.

Guilherme Augusto do Amaral, sobrinho de Tarsila do Amaral


Guilherme foi responsável, juridicamente, pelo legado de Tarsila por mais de 30 anos. Hoje, essa incumbência é da filha dele, a museóloga e bacharel em direito Tarsila do Amaral, 54, sobrinha-neta da artista. “Meu nome, igual ao da minha tia, foi uma homenagem que ele fez a ela e eu o agradeço por isso. É um privilégio ter o mesmo nome desta artista, que tinha o lado conservador, por pertencer a uma família tradicional, mas era uma vanguardista, com pensamento à frente dos demais. E ela era assim por causa do pai dela, que dava apoio financeiro, para as viagens e estudos, e moral, pois ser artista naquela época não era algo bem visto pela sociedade”, disse Tarsila.

Ela contou que a “veia artística” da pintora Tarsila é proveniente da mãe da artista, a avó de Guilherme, chamada Lydia Dias de Aguiar do Amaral. “Lydia era uma musicista nata e autodidata, porque não tinha estudos de teoria musical. Ela era pianista e compositora. A Tarsila até poderia ter sido concertista, mas ela era tímida, então, tinha vergonha de se apresentar em público e por isso foi para a pintura. Ela chegou a estudar com Souza Lima (João de Souza Lima – 1898-1982 – pianista, regente, compositor e professor) e foi ele que a chamou para ir para Paris, falando que ela precisava ir lá para estudar arte”, disse.

Tarsila do Amaral, sobrinha-neta da artista

De acordo com Guilherme, Tarsila considerava uma obra pronta após anos, o que fica evidente na quantidade de pinturas em tela que produziu ao longo da carreira: não mais de 250. “Ela, de fato, não produzia em série. Meditava, fazia uma autocrítica”, disse.

Além de quadros, na técnica pintura óleo sobre tela, aquarela e guache, Tarsila produziu diversas ilustrações, desenhos em grafite e nanquim, esculturas e gravuras, totalizando, ao longo da vida, cerca de 1200 obras. A maioria dos trabalhos está no Estado de São Paulo, em museus e espaços culturais, mas há produções também no Rio de Janeiro e no exterior, em países como França, Argentina, Espanha e Rússia.

A pintora Tarsila foi casada com o médico André Teixeira Pinto, com quem teve uma filha, Dulce. Ela pediu a anulação do casamento e depois se casou com Oswald de Andrade. A artista teve uma única neta, Beatriz.

VISITAS
As visitas à Galeria Tarsila do Amaral podem ser mediadas. A entrada é franca. O horário de funcionamento do local é terça e quarta-feira, das 12h às 17h e das 18h às 21h; quinta e sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h, e sábado, das 9h às 12h e das 13h às 18h. Para agendamento de visitações em grupos é necessário enviar mensagem pa-ratarsiladoamaral@capivari.sp.gov.br.

O endereço da galeria é avenida Cândito Motta, 18, vila Benjamin (Bairro Estação). Informações: (19) 3491-1322.